Quarta-feira
Os Numeros 4, 3, 2 e 5 em Ordem. Admoestacsaum de uma Sancta.
Durante a vigília do somno das armas. É a hora, é a hora. Mas se é a hora, senhor, espera. É pouco digno atentar às horas. Sois nobre, senhor, que foi a hora. Eu o recebi, eu o vesti, velei a vós que velava as armas. Trouxe a espada convosco? Mas o que quer com esta espada? Foi inútil a vigília? Que seríeis sem ela? Foi a hora. Esperai por ela.
Esta espada é outra vela que acenderam diante do meu altar. Cada vela que acendem eu pago com um milagre. E a vela assim ilumina as trevas em Ás de Paus. Mas a espada, senhor, que parco pequeno inútil milagre ela vale. Matasse um touro fora desta Igreja, senhor, na acertada hora. Eu fico sozinha, senhor. Bastam-me as velas, que eu sou feita de cera e fogo. Minha imagem naum pediu mais, é que foi passada a hora do vosso milagre.
Vigiasse mais. Leva o consolo. Deus manda esta lembrancsa. Recorda que em Criancsa vc foi Imperador. Lembra das serras por que vc andou um dia. Vc encontrou um rebanho de cabras perdido em um vale entre os montes. O bode mais velho dentre os outros bodes era também o que sorria mais. As cabras seguiram vc, vc me viu, lembra que eu disse "leve estas cabras para o outro lado da serra. Elas foram um exercito que algum mago transformou em cabras. Volta com elas para a casa que perderam, para elas poderem servir o seu império". Do outro lado da serra naum havia nevoa. Mas um palácio e mil flores. Alem do novoeiro as cabras o serviram bem. Nos saloes do seu palacio augusto, nos jardins do seu Império.
Hoje vc vigia embaixo do meu altar. Altar pequenino de que saem poucos paes a quem os pede. Vc voltou sem a vela que eu pedi. Agora vigia. Que quer fazer com esta espada? Ponha a arma ao canto, ela naum brilha como deve. Vigia para mim, menino, se estamos sozinhos nesta igreja. Há bruma lá fora. Naum há mais nada depois desta vigília. Toma o tempo.
Mas recorda, menino, que em Criancsa foi Imperador. Eram grandes as suas portas, vivas as suas cores. Em Criancsa foi Imperador. Lembra que lá para depois da serra o bode velho mostrou a vc quatro tumulos abertos. Vc perguntou de quem eram. Eram as tumbas dos reis seus ancestrais que nasceriam de sua prole.
Esta espada é outra vela que acenderam diante do meu altar. Cada vela que acendem eu pago com um milagre. E a vela assim ilumina as trevas em Ás de Paus. Mas a espada, senhor, que parco pequeno inútil milagre ela vale. Matasse um touro fora desta Igreja, senhor, na acertada hora. Eu fico sozinha, senhor. Bastam-me as velas, que eu sou feita de cera e fogo. Minha imagem naum pediu mais, é que foi passada a hora do vosso milagre.
Vigiasse mais. Leva o consolo. Deus manda esta lembrancsa. Recorda que em Criancsa vc foi Imperador. Lembra das serras por que vc andou um dia. Vc encontrou um rebanho de cabras perdido em um vale entre os montes. O bode mais velho dentre os outros bodes era também o que sorria mais. As cabras seguiram vc, vc me viu, lembra que eu disse "leve estas cabras para o outro lado da serra. Elas foram um exercito que algum mago transformou em cabras. Volta com elas para a casa que perderam, para elas poderem servir o seu império". Do outro lado da serra naum havia nevoa. Mas um palácio e mil flores. Alem do novoeiro as cabras o serviram bem. Nos saloes do seu palacio augusto, nos jardins do seu Império.
Hoje vc vigia embaixo do meu altar. Altar pequenino de que saem poucos paes a quem os pede. Vc voltou sem a vela que eu pedi. Agora vigia. Que quer fazer com esta espada? Ponha a arma ao canto, ela naum brilha como deve. Vigia para mim, menino, se estamos sozinhos nesta igreja. Há bruma lá fora. Naum há mais nada depois desta vigília. Toma o tempo.
Mas recorda, menino, que em Criancsa foi Imperador. Eram grandes as suas portas, vivas as suas cores. Em Criancsa foi Imperador. Lembra que lá para depois da serra o bode velho mostrou a vc quatro tumulos abertos. Vc perguntou de quem eram. Eram as tumbas dos reis seus ancestrais que nasceriam de sua prole.
Sexta-feira
Senhor das Moscas
Durante a noite em que peguei um trem para Veneza, um cavalheiro da cabine, a ocupar dois lugares e a deitar a cabecsa no cavalheiro de torso desnudo ao lado, roncava taum sonoramente, que eu, sensivelmente insomne, tomei mochila e fiel bengala nas maos, e pulei fora do trem na estacsaum de Padua, a praguejar a madrugada (eram 4 da manha) e comprando uma Coca-Cola na maquina da plataforma.E fui andando pela cidade, vi uma estatua qualquer de Garibaldi enquanto ainda havia lua, e fui a basilica de Santo Antonio enquanto amanhecia. Entrei, vi a igreja, pus a mao no tumulo, e fui ao claustro, onde, em varias linguas, distribuia-se uma revista, que eu peguei em portugues, "Mensageiro de Santo Antonio".Fui ler a revista, satisfeito, por ler no vernaculo patrio, e ainda mais por ler autores de Portugal a falar do santo de Portugal. Quando, leitores curiosos, deparei-me com extraordinario artigo de naum menos fabuloso senhor nonagenario lusitano que, por engenho incrivel, soh escrevia (e possivelmente soh falava tb) atraves de tipicos ditos populares portugueses, por trovinhas, cantigas, e sabedoria de velha de aldeia. Como Sancho Pancsa. Fui lendo o escripto, e em oportuno instante, assomo a passagem intrigante:"Em Portugal naum ha aleijados, mendigos nem viuvas."Oh!!! Sempre interessado em ler loas a patria, senti que encontrara um louvador a altura do que louvar! Quem eh este homem?, pensei comigo. Refugo exaltado dos tempos de Salazar (ou seria Sidonio Paes), ou sonhador invicto e impossivel dos socialismos dos cravos? Como o Duque de Orleans que naum acreditava na morte, este, que de tanto acreditar, de tanto amar Portugal, por amador absoluto, maximo trovador lusitano, acabara por negar o proprio Portugal naum acreditando em suas viuvas, seus mendigos, seus aleijados? Eu mesmo me sentia pouco lusitano, diante deste portugues infinito, infinito pq descrente de Portugal! Continuei a leitura:"Pois Portugal eh pais de tal maneira carinhoso...".E tudo mudou... Naum era mais portugues o autor daquele artigo, era santo talvez, pois que tinha uma solucsaum, mas com ela deixava de ser portugues... Santidade ou o que mais, naum sei, mas sem cravos nem vinho e tiraninho, e tinha lah suas esperancsas, vah lah que naum democracia social ou guerra em Angola, mas tinha carinho nacional. E assim, com taum simples politica, por carinhoso o povo, sumia o aleijado, a viuva, o mendigo? Mas cheguei na conclusaum:"...tal maneira carinhoso que para nohs soh existem aleijadinhos, mendiguinhos e viuvinhas."Fim. Belo. Irrefutavel. Redenccsaum nacional, pensei, e santidade cavalheiresca, respondeu o anjo da Basilica. E eu me pus a sonhar, e sonhei demais, repetindo o dia inteiro:"Ah, que bom seria, se a Saum Francisco fosse Portugal. Pois lah soh haveria, entaum, bestinhas, canalhinhas, putinhas e vaidadesinhas."
Quarta-feira
Se Triunfasse a Vontade
(Dedico este rasgo concrecto aos cantores Nelson Goncsalves e Vicente Celestino)
A capital tinha uma noite escura devido a quem habitava nela, mas era clara por causa das luzes anti-aéreas, e na luz do holofote, sobre a cidade, havia nuvem, alguma lua, e o esquadraum de Messerschmidt. Marchava na avenida, sob as tílias, erecto o Coronel, Freiherr por seus avós mas naum dos seus avos, conquanto marchasse sozinho, marchava, e marchava, marchando como cisne prussiano, pela avenida desta Nova Berlin sem ewigkeit dos que erram. O movimento naum importa deveras. Entaum, se se eximem de imaginar a marcha, que imaginem, leitores, a face do Coronel que eu lhes descrevo, pois quero que a imaginem como eu a fiz, e devem te-la por qualquer cousa que traga um monoculo. Concentrem-se no monoculo. Descsam um pouco a imaginacsaum, mas pulem o nariz e a boca, o queixo, e percebam taum somente a Eisenkreuz que naum lhes sera dificil imaginar, porem impossivel faze-lo taum correctamente. Para imaginar essa personalidade, naum imaginem um homem, pelo amor de Deus, mas pensem em nomes, convoquem nomes. Pensar como eu quero que por um segundo vcs consigam pensar é combinar nomes, pois soh de nome tratam todas as linhas que eu verti para taum elevada consciencia vossa. Que seja um nome. Naum existe nada mais belo que um nome.
Nomes. Um nome naum eh apenas um nome comum de qualquer coisa. Nome por mim ou pelas excelencias é estar além de Deus, é pular no oitavo dia, é o sentido dos batistérios, e também fugir da gramatica divinamente instituida. A gramatica é bela, como é bela toda a criacsaum Dele, mas o nome! Um nome, o nome dou-lhes no final.
O que a historia trata agora, e é do Coronel em Nova Berlin em uma noite escura, devemos imaginar naum pelo comum do imaginavel, mas pela evocacsaum de nomes. Qualquer cousa taum facil que eu me eximo de fazer por quem me le. Se o senhor leitor perde tempo lendo isto aqui, que perca mais lendo direito. Imbecis! Mas imaginem a cena. O Coronel, o monoculo, a cruz de ferro. Eh soh dele que trata. Tudo agora que eu escrevo e agora q vcs leem, tudo no mundo eh ele e soh ele e Nova Berlin naum importa muito. Em breve poderei descrever os dramas do Coronel, no fim havera um grito do Coronel, mas para que isso acontecsa, evoquem os nomes apropriados. Ele eh o que jah descrevi. O resto, tenham a lua, tenham o holofote, esquecsam os avioes, mas carreguem qualquer outro nomignolo, intuam a beleza deste soldado em Berlin, nova cidade opressa do holofote velho de Nuremberg e do realismo do Museu de Munique, intuam Speer e Stauffenberg, pensem em Panzer, os Krupp, a Berta, Gustav von Krupp, o canhaum, o V-2, os moinhos de Holanda.
Erecto marchava o Coronel, ouviu o Messerschmidt, e todos na cidade pensaram em Wagner, nos deuses que morreram gracsas a Deus, pensaram em Siegfried e temas musicais. Pensavam tanto que mais naum podiam se naum quisessem ter o mesmo destino do sapo de Lafontaine. Soh nosso personagem do monoculo, da aguia, da Eisenkreuz, pela primeira ver em sua vida de novas berlins, estava sozinho e naum pensava. É correcto ter em mente as linhas da face marcada, o nariz recto, a palpebra. Arquitetura realista, Coronel, esquadrilha, batalhaum, Wagner, escuridaum, nuvem e lua. Eh a cena.
Agora o drama. Venceu a guera, o mundo é outro, o mundo é novo. O sentido do Novo... Uma nova existencia, um novo sentido. Quam de nós já sentiu o novo em sua inteireza? Naum nós, leitores, eu ou vcs, que somos normais. Novo é um sonho e nós mantivemos os sonhos nos castelos dos outros. Naum sabemos o que é novo mas tanto naum importa pq de qualquer modo podemos sentir, e tal senso nos esmaga pelo peso que tem, podemos sentir este nome, Novo. Nós nunca vimos, criamos pelo nome, mas naum temos. Eles, caros leitores, tinham. Eram novos. Até o Coronel de quem trato em fúlgidas linhas.
Pára o Coronel. Sozinho na avenida inteira. Ninguém fora a Natureza e os esgares da construcsaum humana. Só a luz pouca e o barulho distante. O zunido do Messerschmidt. Por naum pensar naum havia para ele temas de Wagner, nem acordes de Beethoven, nem cantos de Orff. Taum distante o Sturm und Drang, quando todos eles eram outros e velhos. Velho é um nome ridiculo. Uma ofensa aos nomes puros, que é do que trata este texto. Arre.
Sozinho, o Coronel da guerra vinta evocava Leonor. Oh Leonor das doces melenas, dos cachos crueis, da boca de dor! Leonor, Leonor. Uma lagrima para o olho do coronel, o que naum estah coberto pelo monoculo, vejam bem! Pois Leonor, era Leonor do riso de desenganos, das pernas ligeiras, Leonor que tocava nua ao piano do Cabaret que fechou, que só tocava os russo, russos ao piano, russos no canto (esse é um nome que vale algo). Leonor, e um choro, e a farda.
Agora tudo junto, chegamos ao final. O zunido do Messerschmidt, o comecso da sinfonia se tempestuosa, a cidade, o prédio altissimo, a tília, a solidaum, a cruz, o quepe, o piano de Leonor, o cajado quebrado de Wotan. E sai a lua, ilumina uma nuvem, sai de trás da nuvem, ilumina o Parlamento, ilumina a bandeira, a bandeira, o símbolo, a cor no escuro, eh Krishna. Sempre foi ele. Krishna! O Coronel viu, ouviu, entendeu sem pensar, lembrou de Hesse (taum longe!), chorou, as luvas que eram da Leonor das ilusoes.
Ajoelhou-se de dor o bravo baraum, e da alma, de todas as angustias das vitorias, do triunfo da unica derrota que teve em maos de Leonor, de infinita agonia, de unico desabafo, de unica disfarcsada prece, gritou:
"Nem Cauby!!!!!"
Fim. Foi o grito, e o nome. Tantos nomes que saum um só... Podemos falar, podemos consolar. Fica a resignacsaum. Minha pelo menos, e soh nos resta, se me acompanham os leitores, a triste irresistivel conclusaum. É, pois sim, meu caro Coronel, guardo uma certa inveja. Nem Cauby. Só vc.
Segunda-feira
Pelos Louros da Rainha Gosvinda dos Visigodos
Bologna eh uma cidade de Arcadas. Todas as ruas saum arcadas, e naum ha, portanto, calcsada descoberta. As torres saum tortas, os palacios estaum a venda. O padroeiro de Bologna eh Saum Petronio e os tumulos dos glosadores da universidade restam expostos nos jardins de qualquer igreja. Por forcsa dos quilometros e quilometros de arcadas, colunas de todas as pedras, soh ha de se pensar em uma carruagem de fogo. Carruagem de fogo, do Santuario de Saum Lucas ao tumulo de Saum Domingo. Regada a grappa. A descer. Ao fundo. E, meninos, alem, alem. E tal se faz.
Bologna abriga, abaixo de um dos arcos infinitos, uma mendiga brasileira, que, em seus rogos, roga em portugues. Tanto que me rogou que ''Tio, me dah uma moeda?'', ''Naum.'', ''Entaum me dah um sorriso.'', ''Naum.'', ''Mas eh difficile ele sorrir!''. Me pergunto pq naum dei a moeda. Mas bem o sei.
Em italiano se mendiga melhor. Um veio a esmolar que muito o contentaria ''Una moneda per piacere'', ''Sono piu povero que tu'', ''Mai mangia con me?'', ''Non mangio prosciutto.'', ''Mentes a valer!''. Descobriu que eu mentia, mas, para azer dele, naum viu a verdade de uma boa mentira. Meus pares, meus colegas, meus leitores, um nome.
Terça-feira
A Valsa das Criancsas de Ponteleone em Siracusa
Embora a esta vitima de seus iguais seja possivel teorizar acerca do cha e dos povos que o sorvem, eh tristemente impossivel escrever qualquer linha, em verdade e estilo, que expresse meu embaracso e estupor diante desta bebida verde e fosforescente que chamam lemoncello. Embora a queda de chineses, turcos e ingleses possa ser interpretada e correctamente narrada, o que posso falar ou descrever de um povo que bebe lemoncello, nocino, e montenero?
Relato, e apenas isso me resta, os meus apuros de pobre filho da racsa de Luso, inocente vitima do destino e do acaso nesta mesa peninsular de pocsoes maravilhosas e beberagens de um tronco latino que treme, mas, para desgracsa nossa, naum cai. Soh facso sentir as agruras de um doce exilio em Italia, que, conquanto doce, colocou minha honra, meu nome, minha lealdade, minha feh, minha palavra e minha vida a depender, contra minha vontade ou meus actos, de uma receita de lemoncello caseiro.
Sexta-feira
Os Jogos e os Dias
Jamais conheci Machado da Porca alem do portaum da Quinta da Tia Montebello.
Da Quinta mesma, nunca conheci nada alem da presencsa da Tia Montebello, pois a alma da minha parenta enchia todos os cantos da casa, todas as alehias do jardim. Como eu nunca deixava a casa ou o jardim, e jamais visitava Machado da Porca, pois a Tia naum deixava, soh conheci em menino minha tia velha, e tudo da casa era a alma da Tia Montebello. As cousas eram taum cheias dela, que naum eram mais o canapeh ou as imagens, naum era a mesa do canto da livraria, o oratorio, a edicsaum de Camoes, as fotos de familia, o Cupido do jardim, os azulejos da varanda. Tudo que eu tocava, que via, ateh o portaum da Quinta, tudo era minha Tia Montebello. Nunca bebi agua na fonte que naum fosse agua de minha Tia; naum colhi flores que naum fossem para a Tia; naum rezei para santo nenhum que naum protegesse a alma e o credo da Tia Montebello.
Machado da Porca naum era nada, pois naum era Tia Montebello. Ela era a casa velha, as pedras dos Borgonhas, a cruz de D. Egas, a pagina perdida do Cancioneiro Geral, o cheiro dos ovos, o perfume dos pasteis, o retrado de Santa Isabel... Ateh o leitaum assado que a Prima Gardenia preparava era a Tia Montebello. E eu vivia na casa com a Tia, e com a Prima, mas mesmo esta era a Tia. Pois embora a Prima fosse quase vinte anos mais velha, nunca ficamos sozinhos, nunca jogamos o Quero 7 sem a supervisaum da Tia Montebello. Sendo o seu ultimo parente masculino, esperava algum privilegio da Tia, qualquer liberdade de varaum. Mas, pelo contrario, Tia Montebello tomou minha alma como tomou a casa e a Quinta, e tomaria toda Machado da Porca antes de morrer. Olhava para mim, e era assombrada pelas lembrancsas imorredouras do Marques, que Tia Montebello jamais perdoou por ter ido morrer em Espanha.
E se nunca falou de minha mae que morreu quando eu nasci, do meu pai que fora para Angola, Tia Montebello tambem naum falou de si, mas foi resposta para todas as perguntas, e dogma de todas as crencsas. Eu enfileirava os soldadinhos na livraria da casa, e desenhava para eles as armas de Machado da Porca, desenhava a grande porca prenha que era simbolo e bastiaum da paroquia inteira, e somente os soldados tinham algo que ver com Machado da Porca, pois a Quinta, naum. Os soldados carregavam as armas da cidade, e ainda naum sei se eles defendiam a Quinta, ou se a invadiam. Mas a verdade eh que os soldados naum eram minha familia, eram outros e estrangeiros, e eu me via como D. Sebastiaum sozinho no deserto sem saber quem me seguia, e quem me tragava, e via Tia Montebello como o Lavrador D. Diniz, e ela era a Quinta, e a casa, e as escadas do tempo dos Filipes, a palma de Santo Antonio, o marroquim dos livros de Camilo, o damasco e as cortinas. Prima Gardenia ia, uma vez por semana, a feira de Machado da Porca, e para mim ela era o Infante D. Henrique, e devassava mares que se iam alem do portaum da Quinta de Tia Montebello.
E minha Tia respondia tudo sem dizer nada. Ela era a resposta e era eu inteiro que era a Tia Montebello. A desobediencia civil era Tia Montebello, a participacsaum nos atributos de Deus era Tia Montebello, a revolta dos monarquicos era Tia Montebello, a tabela de horas dos comboios era Tia Montebello, a sucessaum do Reino era Tia Montebello, o pecado original era Tia Montebello, o pesticida para os ratos da adega era Tia Montebello, a conspiracsaum judaica era Tia Montebello, a legitimidade do Conselho de Segurancsa era Tia Montebello, a natureza divina e humana de Cristo era Tia Montebello, a Poetica moderna e a de Aristoteles eram Tia Montebello, a bastardia de D. Joaum de Austria era Tia Montebello, a moura encantada era Tia Montebello. Ela era o dever de racsa e era o chamado dos peregrinos, era juizo e intuicsaum; minha Tia Montebello, antes de tomar Machado da Porca, tomou o universo inteiro, para poder tomar Machado da Porca, e tomar a mim.
E quando eu perguntava de amor, e pensava em Rapunzel, em Combray, em Sheherazade, no Bolero, em amantes enterrados vivos... Tia Montebello escarrava e Prima Gardenia ria baixo. A noite eu tinha medo que Amadis de Gaula viesse levar Prima Gardenia. Mas durante os dias, jogavamos o Quero 7, e eu tinha pena da Prima, e esperava algum cavaleiro que a salvasse da Quinta, da Tia Montebello, do mundo, e a levasse para Machado da Porca. Mas que fosse Palmeirim de Inglaterra.
Segunda-feira
Variacsoes sobre o Rap do Amazonino
Que a retorica me ajude, e por ela eu pergunto, em uma unica, gigantesca frase: como pode ser grande assim o amor pela lingua, que da lingua se extraiam terras e imperios, e da lingua sozinha, por suas variacsoes, seus sons, e silencios (pois qd entendemos o silencio, que em cada lingua eh outro silencio, podemos amar a lingua), chegamos a amar a terra e chorar pelo imperio que reinava sobre esta mesma terra, porque o imperio falava a lingua, e a lingua sabia silenciar, e naum se ouvir, para ser terra e imperio?
Naum conhecso a origem da minha lingua como conhecso e um dia direi qual eh a panaceia para o universo. Naum conhecso pq naum penso, naum falo, e detesto o som que o homem entende. Sem pensar nem falar, ainda sinto e julgo como escravos e reis tb tem juizos. E assim sendo, meus inclementes leitores, meus bonissimos companheiros q naum vejo nem conhecso, mas que me odeiam, podem entender, ao menos um unico entre vcs tantos, que eu sinto julgar que preciso sentir cansacso, e soh fadiga eh boa para escapar do meu cerebro, que ao contrario de mim, pensa o que falo, e corromper minha boca, que fala o que naum sinto, mas expressa o que penso, e mostra o que sou?
Esta parte foi ridicula.
Tentemos novamente. Bonissimos leitores. Ouvi cah na Ilha de Egina o que eh a inteligencia entre os europeus. O homem inteligente, e sensato assaz, eh aquele que expressa opiniaum, e que, por engenho da lingua, em perfeita consonancia com a emocaum e com o pensamento, tal qual malabarismo, apoia tal opiniaum em explicacsoes fundadas em opinioes igualmente sensatas, tudo assentado sobre a razaum logica. De tal deve alguem concluir que das opinioes e da razaum, basta ascender aos cumes dos primeiros principios, que a razaum meramente se lembra serem verdadeiros, logicos, inteligentes, para repetir novamente na lingua mais amada. Qd deixara de ser essa ridicula tautologia q eh a vida pensante, para ser arte, o que eh perda de tempo. Assim me explicou uma rapariga da Finlandia.
Mas, respondo entaum ao europeu, naum no Brasil, na minha terra naum existe essa inteligencia. O brasileiro inteligente fala contra a razaum, eh um demonio insano em rebeliaum contra a divindade, pois o brasileiro odeia a logica e despreza a razaum, tem inveja da inteligencia. No Brasil sinal de inteligencia eh falar por paradoxo, equilibrar perpendicularmente argumentos contrarios, jogar abstracoes e sentimentos sobre a roda fisica das forcas cerebrais, brincar no giro centrifugo, centripeto, centricico, centrissimo, excentrico, essenio, senil, dos argumentos impossiveis. Eh falar de tal modo que o ouvinte se sinta esmagado por nada, nada absoluto, se sinta feliz, pq naum compreende, porque o falante eh estupido, e fala pq gosta do sabor do som e naum da alma da palavra, naum eh um homem, eh animal, por isso eh brasileito, e brasileiro fala por contradicsaum. Assim seria, penso, se no Brasil houvesse alguem que esperasse inteligencia do outro. Mas o brasileiro naum eh um ser racional, eh antes de tudo uma criatura moral.
Portanto, o problema brasileiro naum eh cientifico ou existencial ou semioptico, eh moral. Naum eh mostar inteligencia, muito menos busca-la, mas trazer todos os paradoxos, que ele diria apenas em um salaum (seguinda as regras velhas de seculos dos jogos de salaum) se fosse inteligente, para a realidade, e agir como perfeita expressaum desses paradoxos diabolicos, e ser louco e obtuso em respeito a regra do paragrafo anterior que nos brasileiros naum eh senaum uma intuicaum indevassavel. No Brasil o homem moral traz o absurdo ao mundo da materia, e naum pensa no que faz. Eh a chave da minha terra, disse eu na Bar Ingles.
No Brasil temos muitos restaurantes, mas nenhum salaum que se frequente. Eh a desgracsa de nosso povo.
E outros discursos ouvi e fiz ainda. Cah onde trabalho ha, como imaginam os senhores, grande proliferacsaum de vegetarianos. Um dia, eu tomava cha perto de algumas delas. Um vegetariano tem apenas um assumpto a discutir, uma unica paixaum a expressar: o vegetarianismo. As vegetarianas discutiam entaum sobre seu vegetarianismo, e eu ouvia. A primeira perguntou: "como se sente vc, sendo vegetariano, ao cortar dezenas e mais dezenas de galinhas por dia, espalhar sangue animal pela cara inteira, para alimentar as aves de rapina?" Tal pergunta me entediou, pois sendo uma pergunta obvia a se fazer a um vegetariano, eu mesmo nunca quis fazer, por ter como principio jamais discutir com um fanatico ou com uma criancsa. E vejo um vegetariano mais ou menos como uma criancsa fanatica. Uma criancsa fanatica, e louca por brocolis. Mas eis que a segunda vegetariana responde: "corto as galinhas pq entendo que saum imprescindiveis para a sobrevivencia dessas aves. Pois naum podemos alimentar aves de rapina com vegetais... ainda." E, queridos, esse " ainda" veio apos taum prolongado silencio, e em taum baixo tom (como em geral se confessa o inconfessavel), que eu admito ter sentido medo, por ter sabido entaum que estava entre loucos, e tomei a resolucsaum de ir-me embora, para a Bulgaria eh verdade, mas para longe, longe da loucura dessa classe.
Depois, olhei para minha chavena. Foi entaum que disse em meio a insanidade geral que nasce de uma vida entre orgias de batatas e alfaces: "como se explica que as maiores civilizacsoes da terra, e os mais gloriosos imperios, tenham em comum o gosto por cha? Notem como eh o mesmo amor entre os chineses, os otomanos, os britanicos. Me pergunto se ha ralacaum entre o habito de tomar cha, e a extensaum do poder destes povos. E devo concluir que sim, pois cha eh a bebida perfeita, e a sintese de todas as conquistas da humanidade. Representa o dominio da natureza, ao cortarmos e misturarmos os mais diferentes tipos de ervas e plantas, pois essa eh uma ciencia taum antiga qt o homem. Colocamos a erva na agua, elemento vital para a sobrevivencia humana, e a irrigacaum nos preocupou desde o tempo em que perdemos nosso lugar ao Eden. A agua e as ervas colocamos na chavena, de barro, porcelana, tanto faz, importante notar que a confeccsaum de potes ou recipientes eh a mais antiga arte da civilizacaum. Fazemos entaum uma revolucaum na agua e nas ervas dentro da xicara com ajuda de uma colher. E qual, amigos, e a maior conquista da antiquissima arte da ourivesaria, senaum uma pequena colher de prata ou cobre ou ferro ou qualquer destes materias que espalhou sangue e morte na terra durante toda nossa historia? E, se tomamos o cha de preferencia a tarde, nas manhas, e nas noites, mas sempre em horarios fixos, pq entaum nos dah mais prazer, naum eh apenas pq a astronomia, que estudamos desde os zigurates, nos ensinou que assim deve ser? Na xicara de cha posso ver Babel inteira."
"Pq cairam estes tres imperios, entaum, se ainda agora os chineses, os turcos, e os ingleses, continuam a tomar cha? Pq, respondo, a queda dos povos eh fruto da corrupcaum dos costumes que os tornaram gloriosos. E se o cha elevou estes tres povos ao cume da cultura, sua queda e desgracsa soh pode ter sido causada por dois fatores bem definidos: o assucar, e o cafe. Qd puseram assucar no cha, ou beberem cafe, cairam os reis. E como eh belo notar que meu pais foi o maior produtor mundial destes dois produtos, que o Brasil, sozinho, destruiu tres imperios, naum pelas armas, mas pelo veneno, a moda de Bizancio. Que a vocacaum brasileira eh destruir a cultura, a beleza, e a civilizacaum, e trazer o mundo ao nada e as trevas que ele reperesenta taum bem, indigenas penados que somos". As vegetarianas, horrorizadas, perguntaram, entaum: "e agora, oh, senhor, seu pais destruira a maior civilizacaum do mundo, o Brasil batera os Estados Unidos? Nos naum bebemos cha na America, como podera sua terra, senhor, destruir nossa cultura?" Ao que eu respondi, finalmente: "o Brasil naum tem mais assucar nem cafe, mas agora produz em quantidade infinita a soja que as senhoras colocaram nesse macarraum, o suficiente para que utilizassem hereticamente para essa mistura nojenta o sagrado nome de spaguetti a bolognesa. Marquem bem, pois qd os EUA tiverem seu primeiro presidente vegetariano, o Brasil tera cumprido mais uma vez sua missaum de bacteria, de fungo, de verme, e virus."